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Projetos, GPTs e Gems: pare de repetir contexto

Thiago Caserta · 2026-03-03 · ~6 min de leitura

Toda conversa nova com a IA você recomeça do zero. “Sou gerente comercial de uma distribuidora, escrevo pra clientes do varejo, tom direto mas cordial, sem parecer robô…” Você já digitou alguma versão disso umas quarenta vezes. E no dia em que esquece de digitar, o resultado sai genérico e você conclui que “a IA não funciona pra mim”.

Deixa eu reformular seu diagnóstico: o que você tem é um problema de contexto repetido, e as três grandes ferramentas já resolveram ele. No ChatGPT, com Projetos e GPTs personalizados. No Claude, com Projetos. No Gemini, com Gems. O conceito é o mesmo nos três: você escreve as instruções uma vez, anexa os arquivos de referência uma vez, e toda conversa dali em diante já começa sabendo quem você é, pra quem você escreve e como. Criar o primeiro leva uns 15 minutos, e é possivelmente o maior salto de qualidade disponível pra quem já usa IA toda semana.

O que cada nome quer dizer?

O mercado adora batizar a mesma ideia com três nomes, então vamos organizar.

Um Projeto (ChatGPT e Claude) é uma pasta de trabalho: instruções fixas, arquivos anexados e todas as conversas daquele assunto reunidas. Pense nele como “a sala onde vive o assunto X”. Projeto do cliente Y, projeto do orçamento 2027, projeto do livro que você escreve.

Um GPT personalizado (ChatGPT) é um assistente empacotado: instruções, arquivos e um nome, que você chama quando precisa e pode compartilhar com o time. Pense nele como “um funcionário especializado”. Um GPT que só escreve proposta comercial no padrão da sua empresa, por exemplo.

Um Gem (Gemini) é a versão do Google do mesmo conceito de assistente empacotado.

Regra prática pra escolher: assunto que evolui com o tempo e acumula documentos, use Projeto. Tarefa repetitiva com formato fixo, crie um GPT ou Gem. Na dúvida, comece com Projeto, que é mais flexível.

A maior parte disso vive nos planos pagos de ~US$ 20/mês (agosto de 2026; versões gratuitas liberam pedaços, e isso muda toda hora, confira no site). Se você está avaliando se o plano pago compensa, escrevi a conta completa em ChatGPT pago vale a pena?.

Como criar seu primeiro GPT personalizado

Vou usar o ChatGPT como exemplo por ser o mais procurado, mas o processo no Claude e no Gemini é quase idêntico.

  1. No menu lateral, vá em “GPTs” e clique em criar. Ignore o modo de conversa guiada e vá direto em “Configure”, onde você tem controle.
  2. Dê um nome pela função: “Propostas Acme”, “E-mails de cobrança”, “Revisor de relatório”.
  3. Escreva as instruções. É aqui que o jogo acontece, e o formato que funciona tem cinco blocos: quem é você e sua empresa (três linhas); quem é o público do texto; o tom, com exemplos (“direto, frases curtas, zero ‘prezado’, zero exclamação”); o formato de saída esperado; e o que a IA nunca deve fazer (“nunca prometa prazo sem eu informar”, “nunca invente número”).
  4. Anexe até uns poucos arquivos de referência: suas duas melhores propostas, o catálogo de serviços, o material institucional. A IA passa a responder consultando eles.
  5. Teste com uma tarefa real, compare com o que você teria feito à mão e ajuste as instruções. Duas ou três rodadas de ajuste e ele engrena.

O passo 3 merece seu capricho. Instrução vaga gera assistente vago. Se você ainda trava na hora de escrever instruções claras, o método é o mesmo de qualquer bom prompt, e está em como escrever prompts melhores.

Um modelo de instruções pronto pra adaptar

Pra você sair deste artigo com trabalho feito, aqui vai um conjunto de instruções completo, do tipo que eu mesmo uso. Adapte os colchetes e pronto:

Você é meu assistente de [propostas comerciais]. Sobre mim: sou [sócio de uma consultoria de RH com 12 pessoas, atendo indústrias médias no interior de SP]. Público dos textos: [donos e diretores de empresa, gente prática, sem paciência pra jargão de consultoria]. Tom: [direto, cordial, frases curtas; nada de “prezado”, “sinergia” ou exclamação; português simples]. Formato padrão: [proposta com no máximo 2 páginas: contexto do cliente em 1 parágrafo, escopo em tópicos, investimento em tabela, próximos passos em 3 linhas]. Regras fixas: [nunca invente prazo, preço ou nome; onde faltar informação, escreva [PREENCHER] e me pergunte no fim; sempre proponha uma alternativa mais enxuta de escopo]. Antes de escrever qualquer proposta, me faça as perguntas que faltarem pra preencher o formato.

Essa última linha, a de fazer perguntas antes de escrever, é a que mais melhora o resultado na prática. Ela transforma o assistente de datilógrafo apressado em colega que confere o briefing. E a regra do [PREENCHER] elimina o risco mais traiçoeiro desses assistentes, que é a lacuna preenchida com invenção plausível.

O truque dos exemplos (que ninguém usa)

A instrução mais poderosa que existe dispensa adjetivos. Anexe três textos seus de verdade, dos bons, e escreva: “imite a estrutura, o ritmo e o vocabulário destes exemplos”. A IA aprende muito mais com três amostras reais do que com dez adjetivos (“profissional, porém acessível…”). Foi assim que eu parei de receber texto com cheiro de máquina: dei à máquina o cheiro dos meus.

Isso vale em dobro pra GPT compartilhado com equipe. Em vez de treinar cada pessoa a pedir direito, você embute o padrão da empresa no assistente e todo mundo parte do mesmo nível.

Onde isso decepciona

Entusiasmo dado, agora as ressalvas, porque tem gente vendendo GPT personalizado como funcionário digital milagroso.

Primeira: instrução não é obediência garantida. O assistente foge do combinado de vez em quando, especialmente em conversa longa. Releia o que sai. Sempre.

Segunda: arquivo anexado é consulta, e a consulta falha. Com muitos documentos grandes, ele acha uns trechos e ignora outros. Pra interrogar uma pilha de documentos com citação de fonte, ferramenta dedicada faz melhor, e eu mostro qual em NotebookLM na prática.

Terceira, a mais séria: cuidado com o que você anexa. Contrato com cláusula de confidencialidade, dado de cliente, informação estratégica sensível. Verifique a política da sua empresa e as configurações de privacidade da ferramenta antes de subir qualquer coisa que você não colocaria num e-mail externo.

Uma última prática que separa quem mantém isso funcionando: revisão trimestral das instruções. Seu trabalho muda, seu público muda, seus melhores exemplos de três meses atrás deixam de ser os melhores. A cada trimestre, releia as instruções dos seus assistentes, atualize o que envelheceu e troque os exemplos anexados pelos textos mais recentes de que você se orgulha. Dez minutos por assistente, e é o que impede a ferramenta de congelar numa versão antiga de você.

Faça isso agora

Pegue a tarefa que você mais repete com IA. Aquela em que você sempre cola o mesmo parágrafo de contexto antes de pedir. Crie um Projeto ou GPT pra ela hoje: 15 minutos, cinco blocos de instrução, três exemplos anexados. Use a semana inteira e ajuste o que sair torto. Na sexta-feira, compare com o que eram suas conversas do zero. Você não volta mais.

Esse é o tipo de alavanca que separa quem “testa IA” de quem trabalha com ela. No IA sem Enrolação eu entrego meus templates de instrução prontos por tipo de tarefa, mais o método completo pra montar sua operação pessoal de IA sem depender de sorte nem de prompt mágico: ia.thiagocaserta.com/comprar.

Quer o método completo, com os prompts prontos e os processos passo a passo?

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Thiago Caserta
Thiago Caserta

Fundador da Kumulus (vendida pra Logicalis) e da Movestax (vendida pro Magalu). Executivo da Magalu Cloud e autor de dois livros pela Editora Gente. Escreve sobre IA aplicada ao trabalho, sem enrolação. Instagram · LinkedIn

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