Você já viu aqueles prompts de LinkedIn com 30 linhas, persona detalhada, “você é o maior especialista do mundo” e formatação de contrato. E já viu o oposto: gente digitando “faz um texto sobre vendas” e reclamando do resultado. Os dois erram pelo mesmo motivo. Nenhum dos dois entendeu quais peças fazem um prompt funcionar.
A estrutura de prompt que resolve 90% dos casos tem quatro peças: contexto (a situação), tarefa (o que fazer), formato (como entregar) e restrições (o que evitar). Só isso. Um prompt pode ter 4 linhas e conter as quatro peças; pode ter 30 e não conter nenhuma. O tamanho impressiona, a estrutura funciona.
Vou destrinchar cada peça com o erro típico e o conserto, e no final tem o template pronto pra copiar. Se você quer entender primeiro o que é um prompt e por que ele importa tanto, começa por O que é prompt e volta aqui.
Peça 1: contexto, ou por que a IA não adivinha
A IA não sabe quem você é, pra quem é o material nem o que está em jogo. Tudo que você não contar, ela preenche com a média da internet.
O teste do contexto é simples: uma pessoa competente que nunca te viu conseguiria fazer um bom trabalho só com o que está escrito no seu prompt? Pensa no pedido num restaurante. “Me traz uma carne” te entrega qualquer coisa; “uma fraldinha ao ponto pra menos, sem a farofa” te entrega o seu almoço.
Contexto útil em uma tarefa de trabalho costuma caber em três linhas: quem você é, pra quem é o resultado, e qual a situação. “Sou dono de uma corretora de seguros com 8 funcionários em Campinas. Este texto vai pra clientes pessoa física que renovam seguro auto. A renovação deles vence este mês.” Pronto. Essas três linhas mudam completamente o que sai do outro lado.
Peça 2: tarefa, ou o verbo exato
Parece a parte fácil e é onde muita coisa quebra. Dois erros dominam.
O primeiro é o verbo vago. “Me ajuda com essa apresentação” pode significar criar, revisar, resumir, criticar ou traduzir. A IA escolhe um, e raramente o que você queria. Troca por verbo de trabalho: “reescreva”, “compare”, “liste”, “critique”, “estruture”.
O segundo é o pedido-ônibus: cinco tarefas num prompt só. “Resume esse relatório, sugere melhorias, escreve um e-mail sobre ele e monta uns slides.” A IA atende tudo pela metade, porque atenção dividida degrada cada parte. Regra prática que uso: uma tarefa por mensagem. A conversa continua ali mesmo; a próxima tarefa vai na próxima mensagem, herdando todo o contexto.
Peça 3: formato, ou como você quer receber
Formato é a peça que as pessoas mais esquecem e a mais barata de especificar. Três decisões:
Tamanho. Sem instrução, a IA tende ao longo. “Máximo 200 palavras” ou “em até 5 tópicos” corta o inchaço na origem.
Estrutura. Tabela, lista, parágrafos corridos, e-mail pronto pra enviar? Falar isso poupa a rodada de “agora coloca em tabela”. Pra dados comparáveis, aliás, tabela quase sempre ganha: pedir “compare os 3 fornecedores em uma tabela com preço, prazo e risco” devolve algo que você usa direto na decisão.
Tom. “Tom de conversa entre colegas”, “formal sem ser engessado”, “como você explicaria pra alguém fora da área técnica”. Uma frase de tom evita o texto de assessoria de imprensa que a IA produz por padrão.
Peça 4: restrições, ou o que separa o bom do genérico
Se as três primeiras peças dizem o que fazer, a quarta diz o que não fazer, e é ela que mais eleva a qualidade por linha escrita. “Sem jargão.” “Não invente números.” “Sem tom de vendedor.” “Não use a palavra ‘solução’.”
Restrição funciona porque corta, de antemão, os caminhos ruins que a IA tomaria por padrão. É assunto tão central que ganhou artigo próprio: Restrições: o ingrediente que separa prompt bom de genérico.
O template das 4 peças
Contexto: sou [QUEM VOCÊ É] e preciso disso para [SITUAÇÃO E PÚBLICO].
Tarefa: [UM VERBO DE TRABALHO + O QUE EXATAMENTE].
Formato: [TAMANHO] + [ESTRUTURA] + [TOM].
Restrições: não [PADRÃO RUIM QUE VOCÊ QUER EVITAR], não invente dados, e [OUTRA RESTRIÇÃO DO SEU CASO].
E um exemplo preenchido, pra ninguém ficar na abstração:
Contexto: sou sócio de uma contabilidade com 200 clientes PME em Belo Horizonte. Preciso avisar os clientes sobre uma mudança de prazo na entrega de documentos do imposto de renda.
Tarefa: escreva o comunicado explicando a mudança e o novo prazo (dia 20 de cada mês, antes era dia 25).
Formato: e-mail de até 10 linhas, tom cordial e direto, com o novo prazo em destaque logo no início.
Restrições: sem "prezados" e sem juridiquês. Não justifique demais a mudança, uma frase de motivo basta. Não invente datas nem multas que eu não mencionei.
A peça bônus: o exemplo
Existe uma quinta peça, opcional, que turbina as outras quatro quando o assunto é estilo: mostrar um exemplo do que você quer. “Escreva no estilo do texto abaixo” seguido de um material seu que funcionou. No caso da contabilidade acima, colar um comunicado antigo que os clientes elogiaram diria mais sobre o tom da casa do que qualquer adjetivo.
Uso essa peça sempre que a tarefa envolve voz: e-mail, post, proposta. Pra tarefas de análise e extração, ela raramente é necessária, e as quatro peças dão conta. O critério: se você se pegar empilhando adjetivos pra descrever como quer que o texto soe, pare e cole um exemplo no lugar. Adjetivo descreve mal; amostra descreve exato.
As 4 peças precisam estar sempre lá?
Boa objeção, porque ninguém escreve um formulário de quatro campos pra perguntar “qual a capital da Austrália”.
A resposta honesta: as peças precisam estar cobertas na proporção do risco. Pergunta trivial, prompt trivial. Mas repara que mesmo em pedidos médios você cobre peças sem perceber: “me explica tokens como se eu não fosse técnico” tem tarefa (explica), contexto e restrição (não técnico) numa linha só. A estrutura não é burocracia; é um checklist mental. Nos pedidos que importam, um e-mail delicado, uma análise pra diretoria, você roda o checklist por escrito. No resto, de cabeça.
Com o tempo acontece uma coisa curiosa: a estrutura vira automática e você percebe que ela melhorou também os briefings que você dá pra pessoas. Contexto, tarefa, formato, restrições é a anatomia de qualquer boa delegação. A IA só não te deixa fazer malfeito de graça, porque devolve na hora o retrato do seu pedido.
Faça isso agora
Pega o último prompt que te decepcionou. Sério, abre o histórico do ChatGPT e acha ele. Agora passa o checklist: tinha contexto? Verbo exato? Formato? Alguma restrição? Na maioria dos casos você vai achar uma ou duas peças faltando, e vai ser óbvio o que faltou.
Reescreve com o template e roda de novo. Comparar as duas respostas, lado a lado, com um problema seu, vale mais que qualquer teoria. Depois disso, o guia completo com técnicas além da estrutura está em Como escrever prompts melhores.
E se você prefere partir de prompts já estruturados, testados em situação real: a biblioteca do IA sem Enrolação tem 69, organizados por tarefa, com busca e botão de copiar. Está em ia.thiagocaserta.com/comprar.