Já perdi a conta de quantas vezes ouvi “testei o ChatGPT e achei fraco”. Aí a pessoa me mostra a conversa e, em dez segundos, o mistério acaba: o prompt tinha sete palavras, zero contexto e pedia três coisas ao mesmo tempo. A ferramenta não era fraca. O pedido era.
Os erros de prompt mais comuns são poucos e se repetem em todo lugar: pedido vago, excesso de tarefas numa mensagem só, nenhum formato definido, aceitar a primeira resposta, conversa infinita num chat só, tratar a IA como Google e confiar cegamente no que ela devolve. Sete erros. Eu vi cada um deles centenas de vezes, em executivo de multinacional e em dono de padaria, e cometi a maioria antes de aprender. Vamos a eles, cada um com o conserto prático.
Erro 1: o pedido vago
“Escreve um texto sobre o meu produto.” “Me dá umas ideias de marketing.” A IA não sabe quem você é, o que vende, pra quem, nem o que já tentou. Sem isso, ela chuta a média, e a média é genérica por definição.
O conserto é briefing: quem você é, pra quem é o material, qual a situação, o que você quer que aconteça depois. Três a cinco linhas bastam. A estrutura completa do pedido bem-feito está em As 4 coisas que todo prompt precisa ter, e vale a leitura, porque esse erro sozinho responde por metade das decepções com IA.
Erro 2: cinco tarefas numa mensagem
“Resume esse relatório, aponta os riscos, escreve um e-mail pro diretor e sugere próximos passos.” Parece eficiente. O que acontece: quatro entregas medianas em vez de uma boa, porque o modelo divide a atenção e nivela tudo por baixo.
O conserto: uma tarefa por mensagem, na mesma conversa. O contexto se mantém, e cada resposta sai inteira. Custa dois minutos a mais e muda o padrão de tudo que sai.
Erro 3: nenhum formato definido
Você pede uma análise e recebe um textão de 900 palavras quando queria uma tabela. Pede sugestões e vêm 20 quando você queria 3 boas. Aí você reclama da resposta, mas ninguém disse o tamanho, a estrutura ou o tom.
O conserto cabe numa linha no final do prompt: “responda em tabela”, “máximo 200 palavras”, “em 3 opções, da mais conservadora pra mais ousada”. A IA obedece formato com precisão surpreendente. Ela só precisa que você diga qual.
Erro 4: aceitar a primeira resposta
A primeira resposta é um rascunho, e quase todo iniciante trata como entrega final. Aceita mediano, usa mediano, conclui que IA produz coisa mediana.
O conserto é a segunda rodada, e o prompt mais poderoso pra ela é pedir autocrítica:
Avalie a resposta que você acabou de dar como se fosse um [ESPECIALISTA EXIGENTE DA ÁREA]. Dê uma nota de 0 a 10, liste os 3 pontos mais fracos com franqueza e reescreva corrigindo cada um.
Essa técnica rende tanto que ganhou artigo próprio: Faça a IA criticar a própria resposta. Se você só levar uma coisa deste texto, leva essa.
Erro 5: a conversa infinita
Você usa o mesmo chat há três semanas, pra tudo: o relatório, a receita de jantar, o e-mail do condomínio. Num certo ponto, as respostas começam a piorar, misturar assuntos, “esquecer” instruções que você deu lá atrás. Você culpa o modelo, mas o problema é físico: a conversa tem um limite de memória, e o seu chat quilométrico passou dele faz tempo. Explico o mecanismo em Janela de contexto: por que a IA “esquece” a conversa.
O conserto: chat novo pra assunto novo. E quando uma conversa boa ficou longa demais, pede “resuma tudo que definimos até aqui em um parágrafo”, copia o resumo e abre um chat novo colando ele como ponto de partida. Trinta segundos, e a qualidade volta.
Erro 6: tratar a IA como Google
Digitar “melhor CRM pequena empresa” e olhar a resposta como se fosse a lista de resultados da busca. O Google te dá links pra você julgar; a IA te dá um texto com cara de resposta definitiva, escrito com a mesma confiança quando sabe e quando inventa.
O conserto é usar cada um pro que serve. Fato pontual e recente, preço, notícia: busca. Análise, comparação, rascunho, explicação: IA. E quando a IA citar fato, nome ou número que você vai usar de verdade, confere na fonte. Pergunta que eu faço sempre: “eu aceitaria esse dado de um estagiário sem conferir?”. Se não, confere.
Erro 7: confiança cega no que saiu bonito
O mais caro dos sete. Uma resposta organizada, bem escrita e confiante ainda pode ser completamente inútil, ou errada. A IA produz o plausível, e o plausível erra número, inventa fonte e cita lei que não existe. Teve o caso famoso do advogado nos Estados Unidos que protocolou petição com jurisprudência inventada pelo ChatGPT, e casos parecidos já apareceram por aqui.
O conserto tem duas partes. No prompt, restrição: “não invente dados; se não tiver certeza, diga”. No processo, revisão proporcional ao risco: post de Instagram errado é constrangimento, contrato errado é prejuízo. A IA não assume responsabilidade pelo que você publica ou assina. Essa parte continua sendo sua.
Qual erro atacar primeiro?
Se você se reconheceu em vários, calma, todo mundo se reconhece. A ordem que sugiro pela relação esforço-retorno: primeiro o 1 (contexto), porque é o mais barato de corrigir e o que mais muda o resultado. Depois o 4 (segunda rodada), que transforma respostas medianas em boas com um prompt copiado. Os outros vão se ajeitando com o uso.
E uma observação de quem já treinou muita equipe nisso: esses sete erros são, no fundo, erros de delegação. Quem dá briefing ruim pra IA costuma dar briefing ruim pra gente também. A diferença é que a pessoa disfarça o briefing ruim com boa vontade, e a IA te devolve ele na cara, sem filtro. Aprender a pedir bem pra máquina melhora o seu pedir em geral. Foi um efeito colateral que eu não esperava e hoje considero metade do valor.
Faça isso agora
Abre teu histórico do ChatGPT e acha uma resposta que te decepcionou na última semana. Diagnostica com a lista: qual dos 7 erros estava no pedido? Quase sempre é o 1, o 2 ou o 3, e a releitura do próprio prompt já entrega o problema.
Refaz o pedido corrigindo só aquele erro e compara as duas respostas. Repete o exercício com mais dois prompts antigos. Meia hora disso ensina mais que qualquer curso de “engenharia de prompt”, porque o erro é seu, o contexto é seu e a melhora aparece na hora.
Pra quem prefere partir de pedidos que já nascem sem esses erros: a biblioteca do IA sem Enrolação tem 69 prompts prontos, com contexto, formato e restrições embutidos, busca e botão de copiar. Está em ia.thiagocaserta.com/comprar.