Chegou um contrato de 40 páginas pra você assinar até sexta. Ou um edital de 120 páginas em que sua empresa quer concorrer. Ou o relatório trimestral que você precisa dominar antes da reunião de amanhã às 9h. Você não vai ler tudo, e a gente sabe disso. A pergunta é se você vai fingir que leu ou vai extrair o que importa de um jeito confiável.
Resumir texto com IA funciona muito bem, com uma condição: você precisa dizer pra ela o que é “importante” no seu caso. “Resuma este documento” produz um resumo genérico que aperta tudo por igual, e o parágrafo da multa de rescisão vira meia frase perdida, com o mesmo peso da cláusula decorativa. Quem decide o que não pode ser perdido é você, no prompt: prazos, valores, obrigações, riscos. A IA comprime; o critério é seu.
Eu leio documento com IA quase todo dia: contrato de fornecedor, documento técnico, proposta comercial. O método que descrevo aqui é o que sobrou depois de muito resumo bonito e inútil.
Por que “resuma este texto” é um pedido ruim?
Porque resumo é uma decisão sobre o que jogar fora, e você delegou a decisão sem dar o critério. Um advogado, um vendedor e um financeiro resumem o mesmo contrato de três formas diferentes, e os três estão certos. A IA sem critério escolhe o resumo médio, que serve mais ou menos pra todo mundo e de verdade pra ninguém.
O conserto é uma frase: pra que você vai usar o resumo. Compara:
Ruim: “Resuma este contrato.”
Bom: “Vou decidir se assino este contrato de prestação de serviços. Resuma focando no que me obriga, no que me protege e no que pode me custar dinheiro.”
Mesmo documento, mesma IA. O segundo pedido devolve outra coisa, porque agora a máquina sabe qual peneira usar.
Prompt 1: o resumo pra decisão
Meu prompt padrão pra qualquer documento que exige uma decisão minha no final:
Vou usar este documento para [SUA DECISÃO: assinar ou não, aprovar ou não, participar ou não].
Resuma em três blocos:
1. O essencial em 5 frases: do que se trata e qual o ponto central.
2. O que me afeta diretamente: obrigações, prazos, valores e condições, cada um com a referência de onde está no documento (página ou cláusula).
3. Pontos de atenção: tudo que é incomum, ambíguo ou potencialmente caro pra mim.
Restrições: não omita nenhum valor em dinheiro, data ou prazo. Se um trecho for ambíguo, diga que é ambíguo em vez de interpretar. Não invente nada que não esteja no texto.
Documento: [COLE AQUI ou ANEXE]
A exigência de referência (página, cláusula) tem dupla função. Ela te deixa conferir em segundos, e ela inibe invenção, porque a IA precisa apontar de onde tirou cada afirmação.
Prompt 2: o resumo em camadas
Pra relatórios e documentos longos que você precisa dominar em níveis diferentes de profundidade, dependendo de quanto tempo tiver:
Resuma este documento em três camadas:
Camada 1: uma frase que capture o ponto central.
Camada 2: um parágrafo de até 100 palavras com as conclusões principais e os números que as sustentam.
Camada 3: um resumo de uma página, seguindo a estrutura do documento original, mantendo todos os números, nomes e datas relevantes.
Ao final, liste o que você deixou de fora que uma pessoa cuidadosa talvez quisesse saber.
Documento: [COLE AQUI ou ANEXE]
A última linha é a minha parte favorita, e quase ninguém usa. Pedir a lista do que ficou de fora transforma o resumo de caixa-preta em processo auditável. Várias vezes o item mais útil da resposta estava justamente nessa lista.
Prompt 3: extração de dados, sem prosa
Às vezes você não quer resumo nenhum. Quer os dados. Prazo de entrega, multa, valores, quem assina. Pra isso, peça tabela:
Extraia deste documento, em formato de tabela:
| Item | O que diz | Onde está |
Itens que quero: todos os valores em dinheiro, todos os prazos e datas, todas as multas e penalidades, obrigações de cada parte, e condições de rescisão ou cancelamento.
Se algum desses itens não existir no documento, escreva "não consta". Não deduza, não estime, não complete lacunas.
Documento: [COLE AQUI ou ANEXE]
O “não consta” obrigatório é a restrição mais importante do prompt. Sem ela, a IA tem o hábito de preencher lacuna com o que seria plausível, e plausível em contrato é sinônimo de perigoso.
Dá pra confiar no resumo?
Confiar cegamente, não. E quem te disser o contrário está vendendo alguma coisa.
Modelos de IA erram de dois jeitos ao resumir. Primeiro, invenção: eles podem afirmar algo que o documento não diz, com toda a confiança do mundo (explico o mecanismo em Alucinação de IA: por que o ChatGPT inventa coisas). Segundo, o corte silencioso: em documentos muito longos, o modelo pode simplesmente dar menos atenção ao miolo do arquivo, e a janela de contexto tem limite real.
Minha rotina de proteção custa uns cinco minutos e paga o dia: todo número, data e valor que aparece no resumo, eu confiro no original usando o Ctrl+F. É rápido porque o prompt exigiu as referências. E documento de alto risco, tipo contrato relevante ou edital de licitação, o resumo serve pra eu chegar preparado na conversa com o advogado, e nunca pra substituir a conversa. É melhor do que ler 120 páginas na raça? Muito melhor. É infalível? Nem perto.
Um teste que fiz com um edital real de uns 100 e poucos anexos de páginas: o resumo simples (“resuma este edital”) perdeu a exigência de certidão que desclassificaria a proposta. O prompt 3, com a tabela de extração, pegou. A diferença entre ganhar e perder uma concorrência estava na forma do pedido.
E quando o documento é grande demais?
Documento muito longo, tipo o edital de 120 páginas com anexos, pode passar do limite que o modelo processa bem de uma vez. O sintoma clássico: o resumo cobre bem o começo e o fim, e o miolo some.
O conserto é fatiar. Divide o documento em blocos que façam sentido (por capítulo, por seção) e roda o prompt de extração em cada bloco, um por mensagem. No final, pede: “consolide as tabelas anteriores em uma só, sem perder nenhum item”. Dá mais trabalho? Dá, uns dez minutos a mais. Mas os dez minutos garantem que a cláusula da página 87 recebeu a mesma atenção da página 2, e em documento de risco é essa cláusula do meio que costuma morder. Outra saída que uso bastante pra material de estudo é o NotebookLM, que trabalha ancorado nos seus arquivos e mostra a fonte de cada afirmação.
Faça isso agora
Escolhe o documento mais chato que está te esperando agora, aquele que você vem empurrando há dias. Roda o prompt 1 se ele exige decisão, ou o 3 se você só precisa dos dados. Depois confere dois ou três números no original pra calibrar sua confiança naquele modelo, naquele tipo de documento.
Vinte minutos, contando a conferência. Compara com as três horas que a leitura completa ia levar, ou com o risco de assinar sem ler, que é o que a maioria faz.
Esses 3 prompts fazem parte da biblioteca do IA sem Enrolação: 69 prompts pra trabalho de verdade, incluindo análise de propostas e leitura de relatórios, com busca e botão de copiar. Está em ia.thiagocaserta.com/comprar.